terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Jogos dos Sonhos – Espanha 2010 x Brasil 1982

Desde o título mundial da Espanha, muito se falou do resgate do futebol bem jogado e do toque de bola numa Copa do Mundo e é natural que o lendário time de Telê Santana seja lembrado como uma das principais referências, mesmo com a eliminação para a Itália de Paolo Rossi antes mesmo das semifinais em 1982.

Aproveitando o gancho, o blog propõe uma seção experimental “simulando” confrontos de times e seleções de épocas diferentes num exercício de imaginação que tem sua faceta lúdica, mas também informativa.

Vamos então ao duelo imaginário, sempre considerando a distância história e emulando o embate em campo neutro e com condições ideais (times completos, tempo bom, gramado em perfeitas condições, arbitragem correta e discreta, etc.):

A Espanha de Vicente del Bosque entraria com formação e esquema da final: atuando num 4-2-3-1 que varia para o 4-1-4-1 de acordo com a movimentação de Xavi e Xabi Alonso no meio-campo; Iniesta circulando por todo o campo e alternando com Pedro pelos lados, Villa como a referência no ataque, Sergio Ramos ganhando mais liberdade para o apoio pela direita que Capdevilla do lado oposto e Busquets plantado à frente de Piqué e Puyol.

O Brasil de Telê Santana utilizava, na prática, um desenho tático semelhante: a proposta de 4-4-2 – com o famoso “quadrado mágico” no meio-campo formado por Cerezo, Falcão, Sócrates e Zico - ganhava sempre o reforço de Éder, um ponta-esquerda de boa técnica e chute forte que voltava bastante para trabalhar na própria intermediária e articular com os meiocampistas e também com Leandro e Júnior, que apoiavam bastante, ora abertos, ora por dentro numa movimentação incessante que usava o centroavante Serginho como referência.

A volúpia ofensiva contagiava até o técnico zagueiro Luisinho, que também descia e não era raro ver apenas Oscar na defesa em algumas descidas. O 4-2-3-1 brasileiro previa um revezamento pela direita de todos os homens do meio-campo, mas o desenho inicial tinha Cerezo e Falcão mais atrás, Sócrates e Zico alternando pelo centro e à direita e Éder completando o trio de meias.

A disputa pela posse de bola seria interessante, com a Espanha avançando a marcação e tentando evitar a troca de passes do time canarinho entre as intermediárias. E podia ser bem sucedida, já que a Argentina dificultou o trabalho brasileiro no primeiro tempo da derrota por 3 a 1 e o segundo gol de Paolo Rossi no fatídico cinco de julho em Sarriá foi numa retomada de bola – o famoso vacilo de Toninho Cerezo.

Outra arma da “Roja” seria a movimentação de Iniesta e Xavi às costas de Cerezo e Falcão e as investidas de Sergio Ramos e Pedro para cima de Júnior, um dos jogadores mais técnicos da história do futebol brasileiro, mas que tinha dificuldades, tanto no Flamengo quanto na seleção, no confronto direto com jogadores velozes pelo seu setor e que deixava muitos espaços às suas costas por conta da enorme vocação ofensiva. Éder teria que recuar bastante para auxiliá-lo e Falcão e Luisinho também ficariam sobrecarregados na cobertura.

No comando de ataque, a maior vantagem espanhola. Serginho não era o titular da equipe ideal de Telê. Só entrou porque Careca e Reinaldo foram cortados por contusão e o treinador não confiava plenamente em Roberto Dinamite. Suas características não “casavam” com as de seus companheiros e, talvez pela falta de confiança, o atacante também não era eficiente nas conclusões com a camisa verde e amarela. Sua função essencial, então, era trabalhar como pivô, prendendo os zagueiros e esperando a chegada de quem viesse de trás.

Villa também não correspondeu plenamente atuando como a referência na frente e quatro dos seus cinco gols foram marcados com ele jogando pela esquerda tendo Torres no centro do ataque. Ainda assim, sua técnica acima da média, a mobilidade e o faro de gol dariam bem mais trabalho a Oscar e Luisinho que o “Chulapa” a Piqué e Puyol.

No gol, até pela melhor preparação física e técnica dos arqueiros de hoje, Casillas também tinha maiores chances de ser decisivo do que o injustiçado Valdir Peres, que falhou, sim, nos 2 a 1 sobre a União Soviética na estreia, mas depois compensou o frango no gol de Bal com atuação brilhante contra a Argentina, lembrando o goleiro fantástico da excursão a Europa em 1981 e dos amistosos pré-Copa.

A maior dificuldade da Espanha seria conter as investidas pelos lados. Èder e Júnior faziam um revezamento interessante à esquerda e do lado oposto o apoio de Leandro e as incursões alternadas dos jogadores de meio-campo confundiam bastante a marcação adversária. Apesar do clamor popular pela escalação de um ponta-direita, oito dos 15 gols brasileiros no Mundial saíram em jogadas pelo setor. Considerando que Ramos e Capdevilla não são exímios marcadores, é possível imaginar os problemas espanhois na retaguarda.

Falcão e Sócrates também poderiam sobressair pela movimentação inteligente e a fase técnica esplendorosa. Xabi Alonso teria muitos problemas para se impor e muito provavelmente Xavi seria obrigado a recuar ainda mais para ajudar na marcação, até porque Cerezo descia muito e em altíssima velocidade para os padrões da época.

O duelo entre Zico e Busquets também seria interessante. Mesmo sem marcação homem-a-homem semelhante à exercida pelo italiano Gentile, o Galinho teria que se movimentar bastante para sair do cerco do volante que colocou Ozil no bolso na semifinal e dificultou as jogadas de Sneijder na grande decisão. Mesmo sem ter o brilho esperado, o raro talento, além dos quatro gols e duas assistências de Zico em 1982 o credenciariam a levar vantagem sobre seu marcador.

Na reserva, nítida vantagem espanhola. Enquanto Del Bosque teria Fábregas, Torres, Navas e David Silva, Telê poderia fazer a substituição tradicional, trocando Serginho por Paulo Isidoro e avançando Sócrates para o comando do ataque, Batista podia substituir Cerezo, Edinho na vaga de Luisinho…e pouco mais. Dirceu não correspondeu na estreia, Dinamite vivia grande fase, mas não tinha o entrosamento ideal e Renato “Pé Murcho” não parecia uma opção das mais confiáveis apesar do bom nível técnico.


Bem, vamos à questão inevitável num esporte de competição: quem venceria?

A vantagem espanhola na meta, no comando de ataque e no banco não pode ser desprezada. Mas a dificuldade de marcar gols que caracterizou a Espanha seria fatal contra um time que teve incrível média de três por partida em 1982. O Brasil era igualmente técnico, entrosado, gostava da posse de bola…mas era bem mais incisivo no ataque e contava com mais jogadores capazes de desequilibrar.

Placar? Sem ufanismo ou saudosismo e mesmo lembrando que apenas a Espanha levou a taça para casa, daria o inesquecível esquadrão de Telê Santana: Brasil 2 a 1.

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